- Jean Paul...! Vem tomar banho!
Era o grito de Paule, irmã mais velha de Jean, nosso vizinho.
- Já estou indo. Falta só um gol para terminar.
- Vem agora, senão chamo minha mãe!
Com este ultimato Paule acabara de inviabilizar a continuidade de mais uma exibição de gala dos craques da alameda das rosas. Num jogo de dois contra dois, a saída de um era fatal.
Nosso estádio era a calçada e nosso campo era feito de “golzinhos” com duas pedras de cada lado. Chuteiras? Nem pensar! Era descalço mesmo. Aliás, muitas vezes nossos chinelos de dedo se transformavam em traves, no lugar das pedras. E neste palco desfilaram grandes craques: Raul Bahia, Paulo Bahia, Jean Paul, Paulo Preto, Pedro Pepê, Elder Balestra, João da Marta e tantos outros que, mais que atletas ou adversários, eram grandes amigos que se sustentavam na difícil missão de fazer a travessia da infância/adolescência para a fase adulta.
O saudosismo normalmente é característica dos mais velhos. Então assumo minha idade avançada: que saudade...!!!
Todo dia, ao chegar da escola, corria para fazer as tarefas e poder sair na porta de casa para jogar bola com os amigos e vizinhos, que já estavam gritando do lado de fora.
Quando escurecia e não dava mais para enxergar a bola, iniciavam-se então as eternas discussões: “Roberto Dinamite é o melhor do Brasil!”; “que nada, ainda é o bigodudo Rivelino”; “é o Zico, e não se fala mais nisto!”
E os campeonatos de futebol de botões? Coisa séria, com regras pré-definidas, tabelas e horários estabelecidos. Cada um chegava trazendo seu time, dentro de um saquinho plástico, como se fosse o seu patrimônio de maior valor. E era! Dentro destes saquinhos trazíamos não só um time de brinquedo, mas também nossos sonhos de vida, que eram compartilhados de maneira fraternal e sadia.
Quando o dia era de vento, não podíamos perder a oportunidade de “soltar pipa”. E nisto éramos privilegiados. Como morávamos em frente ao Horto Florestal, não existiam prédios do outro lado da rua e, portanto, tínhamos todo espaço do mundo. É claro que sempre tinha alguém que conseguia enroscar a pipa em alguma árvore.
À noite, banho tomado, mais um pouquinho de conversa, agora com a participação também das meninas, destaque para as presenças constantes de Nara e Jacqueline.
Mas este saudosismo exacerbado é só para afirmar que apesar das grandes contribuições trazidas pelo desenvolvimento urbano e tecnológico, o padrão de relacionamento entre as pessoas mudou e, em meu entendimento, para pior. A relação com os vizinhos, que ia mais além do que um símbolo de amizade, ditando comportamentos e ajudando na educação e formação dos filhos, infelizmente perdeu esta conotação. Nos dias atuais, via de regra, os vizinhos deixaram de ser amigos e protetores, para se transformarem em intrometidos e fofoqueiros.
Felizes as pessoas que, como eu, viveram este tempo. Quem sabe ainda volta!!?
Um abraço ao Jean que, ao me adicionar no facebook, reavivou estas lembranças. Bons tempos!







Bíblia, Génesis.